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À partida,
o convite era aliciante: partir para Angola à descoberta
do planalto central, seguindo picadas mais
ou menos esquecidas. Só por isso,
o desafio do raide TT Kwanza Sul era irrecusável,
e a resposta foi imediata: m’bora
p’ra Angola...
Por Rui Faria Fotos Rui Faria e Hélder Oliveira
JULHO 2007 |
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Não tenho
dúvidas de que Angola faz parte do imaginário
de todos os portugueses. Mesmo quem nunca lá esteve
conhece várias pessoas que por lá passaram
ou lá viveram. Por isso, muitos falam de
Angola por ter ouvido falar, ou graças a
fotos ou imagens televisivas, que ficaram gravadas
na memória colectiva de um povo que tende
a esquecer os horrores da guerra (seja ela a colonial
ou a brutal luta fratricida) que durou até há bem
pouco tempo, recordando apenas “os grandes
espaços” de um país “onde
a luz é diferente” e “os cheiros
não se esquecem” – frases que
todos já ouviram (ou disseram) na boca de
quem por lá andou.
Eu vi fotos e filmes, mas também ouvi essas conversas, o que, aliado a
um bom conhecimento de diversos países da chamada África Negra,
me ajudou a imaginar o que seria uma Angola que desconhecia. Mas, como dizia
São Tomé, o melhor é “ver para crer”, pelo que
agarrei com as duas mãos o convite para participar no Raide TT Kwanza
Sul. Queria ir ver como é a Angola do pós-guerra, para poder contar
como foi...
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Encontrámos vários camiões atascados "Está tudo
bem", disseram-nos. "Vamos ter de ficar aqui um ou dois dias"
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De cima para baixo, temos uma visão de Punto Andongo, do alto das grandes
rochas areníticas, as quedas de água do rio Lucala em Kalandula, que já
se chamam as quedas dos Duques de Bragança, e a cidade de Calulo, que terá
o melhor asfalto do país |
À “excêntrico”
No aeroporto da Portela, encontrei os restantes participantes. Cerca de 60 pessoas
entre as quais se encontrava o meu “motorista de luxo”, nada mais
nada menos do que Carlos Sousa, o que me teria feito sentir um “excêntrico” vencedor
do Euromilhões, caso não tivesse na mão um bilhete de “classe
turística” para um voo da TAAG. Mesmo assim, a viagem foi quase
digna do tal “excêntrico”: um Boeing 767 novo, com bancos confortáveis,
uma tripulação simpática e um serviço adequado ajudaram
o tempo da travessia de África, rumo a Sul, a passar depressa.
À chegada a Luanda, mal a porta do avião se abriu, entrou um “bafo” quente
e húmido que nos mostrou que estávamos numa latitude bem diferente.
Num aeroporto minúsculo, em comparação com a mega-cidade
que serve, recordei rapidamente que em África a noção do
tempo é diferente. A espera pelas malas foi longa e os controlos alfandegários
burocráticos, tanto mais que tempo não parece faltar.
Rapidamente entrei no “rame-rame” local. Era irrelevante pensar que
ainda tínhamos de atravessar a cidade a caminho do hotel Trópico,
onde nos esperava o jantar; e não fazia sentido recordar que, no dia seguinte,
a alvorada estava marcada para as três horas (da madrugada!), já que
a partida da primeira etapa estava agendada para as cinco.
A caminho de Malange
Num país onde o tempo passa devagar, a pressa na partida tinha que ver
com a necessidade de evitar o trânsito caótico que imobiliza Luanda.
Hoje em dia, percorrer os cerca de 10 km entre o bairro de Viana e o centro da
cidade pode levar três horas. Por isso, a caravana composta por 22 veículos,
a maioria dos quais as Nissan Pick Up Hardbody (a Navara com motor atmosférico
produzida na África do Sul), deixou Luanda ainda de noite.
Com a cidade a dormir, nem sequer os “candongueiros”, com as Toyota
Hiace que servem de táxi com uma lotação do tipo “cabe
sempre mais um, desde que pague”, nos surgiram no caminho ao longo da baía
de Luanda, rumo a Norte. Com a primeira luz do dia foi fácil ver as centenas
de barcos que esperam a sua vez para descarregar, o que, para alguns, pode levar
meses...
Os morros onde surgia a velha lixeira de Luanda escondem aquele que é considerado
o maior mercado do mundo a céu aberto. Chamam-lhe “Roque Santeiro”,
e por ali tudo se pode comprar. Tudo tem preço, mesmo a vida humana, cuja
cotação está muito por baixo. É fácil lá entrar,
mas sair inteiro não é tão evidente. A caravana passou ao
lado desta “mega-favela”, onde talvez viva mais de meio milhão
de pessoas, segundo nos disseram.
Seguimos para Cacuaco, “onde, noutros tempos, os habitantes de Luanda iam
saborear lagostas acabadas de pescar”, como nos avançou um dos participantes
do raide. No caminho de Maria Teresa para o Catete começaram a surgir
ao longo da estrada os estaleiros das obras que estão a ser realizadas
sob a égide dos acordos entre os governos angolano e chinês, que
deslocou para o país uma comunidade oriental que não pára
de crescer. Por isso, ao longo da estrada que segue ao lado do caminho-de-ferro
que os chineses estão a recuperar, surgem as mais diversas tabuletas escritas
numa língua que só eles entendem.
O Dondo parece perdido no tempo. As majestosas árvores que ladeiam as
estradas, onde o asfalto é quase um vestígio de arqueologia, escondem,
com o diâmetro dos seus troncos, as fachadas de edifícios que nos
remetem para o século XIX. É desolador o estado de degradação
de uma cidade que surge numa região onde o solo esconde diamantes, cobre,
ferro e magnésio.
Depois de trepar o íngreme morro da Binda, onde vários camiões
caídos nas ravinas mostram o sacrifício dos travões nesta
ligação, chegámos a N’Dalatando, antiga Vila Salazar.
Ainda é possível perceber que foi uma cidade cuidada. “Muito
embonecada, com jardim municipal, flores exuberantes e sombras frescas”,
como referiu Henrique Galvão na Monografia do Império (1959), em
co--autoria com Carlos Selvagem. Dessa época restam os vestígios
dos jardins e as sólidas construções que resistem ao tempo.
Depois do almoço, a viagem seguiu em direcção a Malange.
No entanto, cerca das 18 horas, o Sol começa a esconder-se no horizonte,
pelo que ficou adiada a passagem pelas quedas de água do rio Lucala em
Kalandula, que se chamaram Quedas dos Duques de Bragança. Ao fim de um
longo dia, apesar de “apenas” termos percorrido 570 km, a caravana
chegou por fim a Malange, uma cidade que sofreu com a guerra civil, já que
sempre foi uma porta de entrada para o interior do país para quem vem
de Luanda.
Já noite escura, os edifícios são os mesmos do passado e
a cidade parece ter parado no tempo. Os edifícios que recordam os anos
60 só alteraram o seu aspecto com a idade e a degradação.
Por ali, apenas se notam alguns novos prédios fora do centro e as obras
de recuperação do antigo palácio do governador.
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Wako Kundo
já se chamou Santa Comba em homenagem a Salazar. A sua igreja é igual
à que existe na vila da Beira Alta
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| As picadas esquecidas durante 30 anos de guerra civil foram
invadidas pelo capim. que esconde as sanzalas governadas por sobas. No
Kuito é fácil imaginar o horror do conflito |
A caminho de Calulo
No século XVII, Malange foi local de partida de várias expedições
militares portuguesas, que procuraram subjugar reinos rebeldes. Foi no caminho
dessas tropas que seguimos, depois de um desvio para apreciar a imponência
das quedas de água de Kalandula, que em nada ficam a dever à magnificência
das de Vitória, no Zimbabué. É um local que convida a passear,
embora a guerra civil tenha deixado um perigoso rasto de minas, que ainda lá estão,
na encosta a norte do rio Lucala.
No Cacuso dissemos, finalmente, adeus ao asfalto. Foi uma despedida radical,
porque pela frente a picada estava transformada numa autêntica papa de
lama, onde Carlos Sousa, o meu “motorista de luxo”, deixou de guiar
e passou a navegar, fazendo bordos para fugir das crateras cobertas de água
castanha.
Não era fácil avançar, apesar da tracção às
quatro rodas do nosso Nissan. Foi então que, para grande espanto, encontrámos
um “candongeiro” com a sua Hiace com oito passageiros. “Vou
para Luanda. São dois dias de viagem”, disse-nos o condutor do furgão
que, apesar dos pneus carecas, lá ia indo...
Nós seguimos para Pungo Andongo, ou Pedras Altas, como preferirem, onde
se refugiou o povo N´Gola (a origem do nome Angola) que resistiu à colonização
portuguesa. Verdadeiros megálitos gigantescos formam um caminho labiríntico
que leva ao planalto, onde em apenas meia dúzia de casas é fácil
perceber que a guerra civil também passou por ali: na casa do soba (chefe
da aldeia), os buracos de uma rajada de metralhadora são um graffiti evidente,
da mesma forma que o buraco no telhado mostra por onde entrou um obus.
No meio das rochas areníticas surgem marcas de pegadas humanas, que, segundo
a lenda, pertencem à rainha Njinga Bandi, que foi derrotada pelos portugueses
em 1626.
Levada à presença do governador João Correia de Sousa, como
não tinha nenhuma cadeira para se sentar, ordenou a uma serva para se
colocar de pés e mãos no chão e sentou-se nas suas costas.
Terminada a audiência, ao retirar-se, o governador português perguntou-lhe
se não mandava levantar a serva, ao que a rainha respondeu que já não
precisava dela porque não se sentava duas vezes na mesma cadeira... Mais
tarde, converteu-se ao cristianismo e tomou o nome de Ana de Sousa, tendo vivido
até aos 81 anos.
Discutindo histórias do passado de Angola, seguimos na direcção
do rio Kwanza, parando na barragem de Kapanda, que Angola conseguiu construir
em tempo de guerra e que poderá vir a ser um dos grandes pólos
de desenvolvimento de um país, que, apesar de rico em recursos naturais,
vive à míngua de energia eléctrica.
Mais uma vez fomos surpreendidos pelo cair da noite. Faltavam 150 km de picada
enlameada no caminho para o Calulo, e ainda se discutiu a possibilidade de pernoitar
na barragem, mas, apesar do adiantado da hora, a caravana seguiu viagem.
Se tudo foi mais ou menos fácil até à ponte do rio Kwanza,
que faz a fronteira com a província do Kwanza Sul, a seguir tudo se complicou. À saída
de uma lomba, a caravana ficou de frente com vários camiões-cisterna
enormes. Estavam atolados. “Está tudo bem”, disse-nos um dos
condutores. “Vamos ter de ficar aqui um dia ou dois, é o habitual”,
acrescentou. Mais tarde, viemos a saber que tiveram mais sorte: no dia seguinte,
uma grua da Sonangol (petróleos de Angola) conseguiu desatascá-los.
Mais à frente, numa descida difícil, a caravana parou. Uma das
Pick Up escorregara para uma rilheira, mas com um puxão tudo se resolveu.
Mas o pior estava para vir...
No início de uma subida íngreme, a caravana parou. Começavam
os atascanços. Foi tempo para sentir o cheiro da terra quente empapada
pela chuva e escutar o barulho dos pássaros que vivem na copa das grandes árvores
que fazem sombra aos cafeeiros. Estávamos numa zona onde a produção
de café já foi muito abundante. Havia tempo para conversar, enquanto,
mais à frente, os primeiros Nissan tentavam ultrapassar o mar de lama.
“É uma zona muito bonita”, adiantou-nos um dos participantes
que ali teve uma fazenda. Contudo, a noite estava escura como breu e, na ausência
da lua, nem sombras se notavam.
Chegámos muito tarde a Calulo, depois de uma longa jornada em tempo de
condução, devido às dificuldades do percurso, mas nem por
isso ao nível dos quilómetros, que nem chegaram a 400.
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| Na Quilenda as instalações
do Instituto do Café são uma magnífica construção ao estilo colonial(em
cima). A igreja de Wako Kundo é uma cópia da que existe em Santa
Comba Dão. Vai ser recuperada com o apoio da Câmara Municipal de
Almada. Os mercados (ao lado) parecem parados no tempo |
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O dia mais longo
Quando cheguei, a cidade estava a dormir, pelo que só na manhã seguinte
descobri a povoação mais cuidada de quantas tínhamos cruzado.
O asfalto das ruas era novo, o jardim cuidado e as casas mais degradadas estão
a ser recuperadas. Disseram-nos que é obra de um ministro que ali nasceu,
mas isso pouco interessa. Mesmo sendo verdadeira esta “boca” venenosa,
só posso concluir que, se cada cidade tivesse um ministro no governo,
a recuperação do país talvez fosse mais rápida...
O asfalto termina onde finda o casario de Calulo. Seguimos a picada numa jornada
com destino ao Kuito, a cidade que já se chamou Silva Porto. Depois da
chuva do dia anterior, tínhamos a companhia do sol e de um céu
azul que a ausência de poluição torna mais esplendoroso.
A picada seguiu por Kisongo, onde apenas as ruínas recordam os armazéns
das antigas fazendas de café, algumas das quais só podem ser recordadas
pelas fachadas das suas casas.
Mais à frente foi necessário atravessar uma pequena ponte feita
de troncos, mas no outro lado o primeiro carro da caravana teve dificuldade em
passar. Foi um ligeiro atascanço que um pequeno puxão resolveu
rapidamente. Contudo, na subida que se seguia, as ervas escondiam o terreno esponjoso.
Com dificuldade, os primeiros Nissan conseguiram chegar ao terreno firme, mas,
a cada passagem, o terreno ficava cada vez mais revolto. Por isso, ao mesmo tempo
que quem conseguia passar o riacho ficava atascado na subida, vários Nissan
começaram a ficar “plantados” logo junto à água.
Ao fim de mais de duas horas ainda nem todos os carros tinham conseguido ultrapassar
o lamaçal. “No tempo da guerra, até os camiões Kamaz
ficavam aqui atascados durante muitas horas”, disse-nos um soldado. Apenas
tínhamos cumprido 120 dos mais de 500 km da etapa e já passava
do meio-dia. Estávamos num impasse.
Por isso, foi decido dividir a caravana. Quem estava em condições
para seguir em direcção a Mussende seguiu em frente.
Entrámos depois numa das mais fantásticas pistas que já percorri.
A velha picada, sem utilização ao longo de décadas de guerra,
foi invadida pelo capim, que cresceu a uma altura que, em alguns locais, escondia
totalmente os Nissan. Depois, de repente, a parede verde que roçava a
carroçaria do Nissan desaparecia para deixar ver as sanzalas onde ainda
se vive muito longe do século XXI.
Por várias vezes parámos e rapidamente os adultos acorriam, curiosos.
As crianças ficavam para trás. Aproximei-me de um pequenito que
rapidamente começou a chorar. Por estranho que pareça, o susto
foi provocado pela cor da minha pele. Ele tinha nascido já depois da guerra
civil que eclodiu após a fuga dos portugueses, e nunca tinha visto um
branco. Podem crer que, como esta criança, há muitas mais em Angola.
Ultrapassado o muro de capim, a pista tornou-se um violento trial onde às
vezes o velocímetro marcava 40 km/h. Para complicar as coisas, um dos
dois Nissan Patrol GR que integravam a caravana teve um furo e, pouco mais à frente,
outro. Não foram bem furos, mas sim pneus cortados pelos matacões
que cobriam a picada. Estava esgotado o stock de pneus sobressalentes para os
Patrol GR, e ainda nem a meio da etapa estávamos. Felizmente não
houve mais furos, mas os quilómetros passavam devagar, e cerca das seis
e meia já era noite.
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Os benefícios da publicidade são reconhecidos,
apesar da ortografia ser algo duvidosa. Lado a lado com o sector de reparação,
surge um stand. São imagens que se podem encontrar em toda a África negra |
Para complicar ainda mais as coisas, era fundamental reabastecer no Mussende,
porque sabíamos que no Kuito muito dificilmente haveria gasóleo
suficiente para a caravana. Quando lá chegámos, encontrámos
uma cidade fantasma onde não se via vivalma nas ruas. Mas, apesar do adiantado
da hora, estavam à nossa espera.
Ainda faltavam cerca de 150 km e o cansaço era evidente. Todos tinham
trabalhado para ajudar a desatascar os carros na fase inicial, e doze horas aos
saltos dentro dos Nissan provocaram mossa. Como se isso não bastasse,
a estrada asfaltada que esperávamos encontrar era apenas uma estrada onde
já houve asfalto... A passagem dos tanques durante a guerra civil fez
com que o piso das bermas fosse bem melhor, mas por ali não se podia seguir
porque toda a zona está repleta de minas.
Ao fim de quase 15 horas de viagem, chegámos ao Kuito. Até aí todas
as noites tínhamos dormido em hotéis. É certo que uns mereciam
mais esse nome do que outros, mas não se podia exigir mais. Mas no Kuito
a “reserva” estava feita no antigo liceu, onde duas salas de aula
foram transformadas em camaratas com os colchões no chão. No entanto,
o cansaço era muito.
Cidade mártir
Na manhã seguinte descobrimos a antiga cidade de Silva Porto, totalmente
destruída pela guerra. Não deve haver uma única casa cujas
paredes não estejam traçadas pelas balas de metralhadora. Os sinais
da metralha até são visíveis nos postes dos candeeiros que
já garantiram a iluminação pública. Indiferente às
ruínas das casas esventradas, a cidade fervilha.
Quando deixámos o Kuito, a segunda parte da caravana ainda não
tinha chegado. Prosseguimos na rota da guerra, assinalada pelos destroços
de carros de combate perdidos no meio do capim, acompanhados pelos avisos de
terreno minado ao lado da pista.
No Huambo, que já foi a cosmopolita Nova Lisboa, é fácil
imaginar o glamour de uma cidade onde o general Norton de Matos sonhou instalar
a capital do Império Colonial Português. As avenidas largas, com
os seus altos edifícios, recordam uma cidade que vibrou com o seu circuito
citadino e onde competiram pilotos de renome internacional, da mesma forma que
o bairro das moradias mais parece um museu da arquitectura modernista dos início
da década de 60.
Já na pista, apenas podíamos comentar que se nota algum esforço
para recuperar uma cidade que também sofreu muito com os anos de guerra.
Foram estas conversas que ocuparam o tempo no caminho para Wako Kundo. Como a
segunda metade da caravana ainda estava muito atrasada, foi decidido esperar
por ela na cidade que já se chamou Santa Comba, em homenagem a António
de Oliveira Salazar.
Pela manhã, foi possível descobrir uma cidade que nasceu para acolher
os colonos que ali se instalaram nos anos 50, dando origem a grandes explorações
agrícolas e pecuárias, e onde uma população maioritariamente
açoriana chegou a produzir cerca de 100 mil litros de leite por dia, tornando
famosos os seus lacticínios.
Hoje, o governo angolano tenta recuperar essa tradição. Reconstruiu
e alargou as antigas aldeias que funcionam um pouco como os kibutz israelitas.
As populações que ali viviam foram mantidas, ao mesmo tempo que
foram criadas condições para receber soldados desmobilizados dos
exércitos que se confrontaram durante a guerra civil.
A Aldeia Nova, como se chama este projecto, ajudou a revitalizar a antiga Santa
Comba, onde a Câmara Municipal de Almada apoia a recuperação
da velha igreja colonial, construída à imagem e semelhança
da que existe em Santa Comba Dão, terra natal de Salazar.
Só a meio do dia chegou a segunda metade da caravana. Tinham estado muito
tempo a desatascar todos os carros. Depois, uma grande chuvada fez transbordar
um riacho que destruiu uma ponte feita de troncos, e tiveram de a reconstruir.
Comeram e dormiram numa sanzala perdida no meio do mato, pelo que só chegaram
a Wako Kundo quase um dia depois de nós.
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A
fazenda da Boa Entrada dispunha de uma linha férrea própria,
que permitia levar o café ali produzido até Porto
Amboim
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| Junto ao mar, redescobrimos o asfalto na ligação entre o
Sumbe e Luanda. A paisagem da costa foi recortada pelas chuvas e moldada
pelo vento. A praia do Cabo Ledo é um oásis perdido |
Mais atascanços
A sexta etapa deveria seguir até à Lagoa, mas, devido ao dia perdido
para reagrupar a caravana, foi encurtada. A meta foi fixada na Gabela. A beleza
dos rápidos do rio Kewe começou por motivar a caravana, que, no
caminho para a Jamba do Ebo, passou pela zona do Hembo, onde, em Dezembro de
1975, o MPLA deteve a invasão sul-africana.
Um monumento assinala o local onde, em 15 de Dezembro, “um carro blindado
de Cuba com quatro comandantes a bordo seguiu por um caminho onde os sapadores
já haviam detectado algumas minas.(...) Os sapadores advertiram o blindado
para não andar naquela estrada cuja vantagem era apenas ganhar alguns
minutos, o que não era necessário. O carro mal entrou no caminho,
voou por causa de uma explosão. Dois comandantes de tropas especiais foram
seriamente feridos. O comandante Raúl Diaz Arguelles, comandante geral
das operações internacionalistas em Angola, herói da luta
contra Batista e homem muito querido em Cuba, morreu na hora”, escreveu
Gabriel Garcia Marquez num artigo sobre a “Operação Carlota” (o
envio das primeira tropas cubanas para Angola) na revista Tricontinental, em
1977.
Começou a chover, mas o programa previa uma aproximação
das margens do rio Kewe para tentar ver os hipopótamos que por ali costumam
aparecer. Como seguia num dos primeiros carros, foi fácil perceber que,
com a chuva, a picada iria transformar-se num mar de lama. Por isso, voltámos
para trás.
No regresso à sanzala de onde tínhamos partido, era necessário
atravessar um braço do rio. Os dois primeiros Nissan tiveram algumas dificuldades
devido à lama, mas passaram. Eu também passei, mas a saída
do rio estava toda empapada e a pick-up que seguia atrás de mim ficou
lá. Ficou ela e ficaram as restantes. Recomeçou a faina e as horas
foram passando.
Como a última Pick Up não conseguia sair do local, a caravana seguiu,
deixando para trás cinco carros. Eu estava num deles. De catana na mão,
os homens da sanzala abriram um caminho alternativo no meio do capim, mas a terra
era igualmente uma pasta de lama. Por isso, metro a metro, o guincho de um Patrol
GR foi puxando a pick-up, ao mesmo tempo que eram cortados troncos das árvores
para serem colocados nos trilhos. Foi um trabalho difícil.
Já noite cerrada, retomámos o caminho. Não parava de chover
e ainda tínhamos muitos quilómetros pela frente. No meio de uma
picada transformada em mar de lama, ficámos frente a frente com um camião
atascado até à caixa de carga, que o condutor tinha abandonado.
Era impossível passar. Ainda estávamos a pensar como íamos
sair dali quando surgiram dois miúdos, saídos de uma cubata que
mal se via. Eles conheciam uma alternativa.
Voltámos para trás, seguimos as indicações e saímos
na estrada mais à frente: a Gabela era para a frente e os miúdos
voltaram para trás a pé, com alguns Kuanzas, bonés e t-shirts.
Era o mínimo...
Eram quase duas da manhã quando chegámos às imponentes instalações
do antigo Instituto de Café de Angola, onde dormimos.
Na rota do café
Os edifícios das antigas fazendas produtoras de café acompanharam-nos
no início da sétima etapa, que nos levou para Sul, e depois para
ocidente, em direcção ao mar. As grandes árvores que criam
a sombra exigida pelas plantas do café foram trazidas do Brasil pelos
colonos portugueses, que, por sua vez, enviaram os cafeeiros para a América
do Sul e até para Timor.
O café fez a riqueza desta região e o expoente máximo da
sua exploração surgiu na fazenda da Boa Entrada, que descobrimos
depois de passar a Gabela. Foi uma propriedade da família Espírito
Santo. Chegou a ser considerada a terceira maior “cidade privada” do
mundo, e no tempo da guerra colonial era defendida por uma companhia do exército
ali sediada.
Foi o único local de Angola onde vigorou uma política de apartheid,
já que havia bairros e escolas para trabalhadores brancos e para negros.
Os únicos locais onde a população se misturava eram a igreja,
o hospital (chegou a ter 17 médicos, hoje conta com dois) e o cemitério...
A fazenda também dispunha de um caminho-de--ferro próprio, que
a ligava a Porto Amboim, de onde o café era exportado.
Foram ali formados muitos dos quadros angolanos, e Agostinho Neto, primeiro presidente
da república angolana, trabalhou na Boa Entrada “com estatuto de
branco”, como nos referiram. Foi um dos cerca de cinco mil habitantes da “cidade”.
Hoje, a fazenda chama-se CADA (Companhia Agrícola de Angola) e, após
a privatização, passou a ser controlada pelo “cidadão
José Eduardo dos Santos”, como nos disseram.
Seguindo em direcção ao mar, a caravana ainda passou por uma central
de desminagem antes de chegar ao Sumbe, capital da província do Kwanza
Sul. O Sol escondia-se no horizonte, mas a chuva tinha ficado no interior. A
praia estava deserta e o apelo era irresístivel. Queria ir tomar banho,
mas não foi fácil. Mal me aproximei da água, surgiram dois
polícias que me disseram que era proibido tomar banho à noite.
Fui dizendo que conhecia o vice-governador, que era participante no raide e que
o governador ia fazer uma recepção à caravana, e lá os
convenci. Mas, autoritariamente, avisaram-me: “Só 15 minutos, porque
a água está muito fria e pode causar câimbras”. Fria
ou não, pouco me interessava. Entrei na água e parecia sopa. Se
os polícias do Sumbe fossem à praia do Guincho deveriam ficar à espera
de ver pinguins e ursos polares...
Regresso a Luanda
Do Sumbe a Luanda foi um passeio. Finalmente encontrámos uma estrada de
alcatrão a sério. Houve tempo para tudo. Parte da caravana parou
na fantástica praia de Cabe Lebo, outra dirigiu-se ao antigo parque da
Quiçama, onde um guia turístico anterior a 1975 referia a existência
de elefantes, búfalos vermelhos, pacaças, hipopótamos, palancas
vermelhas, veados, javalis, ursos formigueiros, leões, macacos, hienas,
chacais, crocodilos, etc. Hoje, os poucos animais que se podem ver foram importados
recentemente por quem está a tentar reanimar o parque.
Na Quiçama, como na maior parte de Angola, 30 anos de guerra dizimaram
a fauna e, ao longo de milhares de quilómetros, apenas vi uma cobra, tão
pequena que é quase um elogio chamar-lhe cobra... |
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